Comparação entre ensaio ELISPOT e PPD em crianças sadias expostas ao Mycobacterium tuberculosis

Comparison of enzyme-linked immunospot assay and tuberculin skin test in health children exposed to Mycobacterium tuberculosis.
Hill PC, Brookes RH, Adetifa IMO et al. Pediatrics 2005; 117: 1542-8.

        Os autores, infectologistas e epidemiologistas de Uganda e Nova Zelândia, realizaram esta importante pesquisa em Gâmbia, na África. Lembram que a tuberculose em crianças é um problema de saúde importante em crianças, mas negligenciado. Em 1991 havia uma reserva de 180 milhões de crianças com a forma primária latente, sendo 1,3 milhão de casos de tuberculose e 450 mil mortes naquele ano, a quase totalidade em países em desenvolvimento.
Realizaram uma comparação do novo método ELISPOT com o tradicional PPD (teste tuberculínico cutâneo) em relação à capacidade de diagnosticar tuberculose em crianças com menos de 15 anos em Gâmbia, país tropical de alta endemicidade desta doença. De junho de 2002 a setembro de 2004, 693 crianças que conviviam com mais de 200 adultos com tuberculose confirmada por exame de escarro positivo, foram avaliadas por ELISPOT e por PPD. Das 693, 280 (40%) foram positivas por um dos dois métodos ou ambos. A concordância entre os dois testes foi 83% (kappa=0,62 – o que revela boa concordância). Foi avaliada a positividade em 3 níveis de intensidade de contato com os tuberculosos: crianças que dormem em outra casa (ELISPOT + em 20%, PPD + em 15%); crianças que dormem em outro quarto, na mesma casa (ELISPOT + em 32%, PPD + em 32%), crianças que dormem no mesmo quarto (ELISPOT + em 46%, PPD + em 52%). Portanto, quanto maior a intensidade de contato com o adulto doente, maior a chance de a criança estar infectada. O ELISPOT mostrou menor sensibilidade que o PPD em situações de alto nível de exposição ao adulto infectado, mas mostrou maior sensibilidade que o PPD nos casos de baixo nível de exposição. A realização prévia da vacina BCG (46% das crianças tinham cicatriz visível) não prejudicou a capacidade de positivação do PPD e não interferiu em sua sensibilidade. Apenas 3 crianças eram HIV positivas.

COMENTÁRIOS: dificilmente no Brasil algum pesquisador conseguiria uma amostra tão grande de contactantes com tuberculosos em apenas 2 anos. Em países da África uma pesquisa como esta é realizada rapidamente. Os autores concluíram que o ELISPOT utilizado em associação ao PPD é vantajoso em comparação com o uso do PPD isolado, o qual até aqui vinha sendo considerado o único método capaz de diagnosticar infecção pelo M. tuberculosis, apesar de ter sensibilidade e especificidade desconhecida. No entanto, avaliar este trabalho permite constatar que o velho e bom PPD, quando resulta induração cutânea de diâmetro maior que 10mm, continua sendo um excelente método para diagnóstico de tuberculose em crianças. Apenas para recordar, o índice kappa é um método estatístico para avaliar a concordância entre dois observadores (ex. dois radiologistas; dois patologistas) ou dois métodos (ex. VDRL e FTA-ABS) nos resultados encontrados. Índice kappa de 0,4 a 0,6 significa concordância regular, 0,6 a 0,8 boa concordância e acima de 0,8 ótima concordância.

Resumo e comentários: Aristides Schier da Cruz (Presidente da Sociedade Paranaense de Pediatria)