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Correio
Braziliense
Brasília, terça-feira,
02 de maio de 2006
Democracia
de conveniência
Dioclécio
Campos Júnior
Médico, é professor titular da UnB
Vêm
aí as eleições. Todo cuidado é
pouco. A confusão de conceitos políticos
é o prelúdio da decadência social.
É imperceptível à maioria das pessoas,
mas friamente planejada pelos donos do poder. Os governos
valem-se da correria em que o cidadão se consome
na luta diária para retirar-lhe direitos e impor-lhe
deveres. Utilizam-se da propaganda oficial como estratégia
de alienação. Desestimulam a leitura reflexiva.
Penetram e dominam as consciências por meio dos
efeitos especiais. Subordinam irreverências. Estancam
inovações. Estigmatizam o pensamento crítico.
A sociedade torna-se uniforme, sem graça, sem
viço, vítima de uma espécie de
macdonaldização de valores embalados no
mesmo pacote, de igual sabor e tempero. É a face
democrática do totalitarismo dos dias atuais.
Já
se definiu a democracia como o governo do povo, pelo
povo e para o povo. Assim se aprendia na escola. Era
o conceito que circulava na sociedade. Os tempos mudaram.
Os gregos que o criaram sumiram na poeira da história.
Até a Grécia conheceu a ditadura militar.
Só a duras penas superou-a. O regime democrático
do mundo moderno tornou-se mera retórica para
a perpetuação do poder. Nada tem a ver
com o povo, presente apenas na etimologia da palavra,
porém distante do conceito de democracia.
Os
governos se imaginam entes à parte e agem como
se o fossem. Fazem o que querem, mesmo sabendo que o
único ente verdadeiro é a sociedade civil
que os elege. Deveriam subordinar-se a quem os escolhe
porque exercem função delegada. Não
podem ter vida própria. São designados
pelo povo para administrar, em seu favor, os bens e
interesses coletivos, muito embora deles se apoderem
como propriedade privada. Ignoram os direitos dos eleitores.
São transitórios, mas revelam sempre a
intenção de perpetuar-se.
No
Brasil, ex-colônia, a deturpação
conceitual da democracia é ainda maior. Os governantes
guardam muito da atitude dos agentes da colonização
que saqueavam o povo para enriquecer a metrópole.
Dispõem do patrimônio público a
seu bel prazer. Doam-no a amigos, vendem-no sem ouvir
o legítimo proprietário, cedem-no em troca
de favores pessoais. A coisa pública é
figura abstrata que não lhes passa pela cabeça.
Não a respeitam.
A
concepção clássica de democracia
não se aplica, por isso mesmo, aos governos brasileiros.
Sejam militares, sejam civis. Os primeiros, pela natureza
autoritária de sua formação. Os
segundos, pela identificação com a elite
dominante ou pela cooptação que os coloca
a serviço dela. O resultado é o mesmo.
O regime que vivemos é tudo, menos democrático.
De fato, nossos governos não são do povo.
Servem-se dele para se eleger. Usam de todos os recursos
para iludi-lo e obter o voto para cumprir formalidade
eleitoral. Nossos governos também não
são pelo povo. Ao contrário, reprimem
as manifestações discordantes. Só
não censuram as que lhe sejam favoráveis.
Os membros do parlamento, salvo exceções
cada vez menos honrosas, pensam em tudo, menos na sociedade
civil cujos interesses deveriam defender. Preferem defender
os próprios. Os partidos políticos não
são realidades, são legendas. Funcionam
como agrupamentos de alta rotatividade, baixa coerência
e nenhum senso ético. O judiciário, devagar
quase parando, opera como casta defensora de privilégios
corporativos e garantia dos direitos dos poderosos.
Nossos governos tampouco são para o povo, entendido
mais como estorvo do que como fonte de onde emana o
poder. Suas ações enriquecem investidores,
expandem fortunas, concentram renda. Suas diretrizes
econômicas são definidas para agradar mercados
e celebrar a euforia das bolsas de valores.
Os
programas concebidos para o povo são todos assistencialistas,
clientelistas, geradores de dependência, jamais
libertadores do homem, nunca voltados para a promoção
da cidadania. Para os ricos, a bolsa de valores. Para
os pobres, a bolsa-família, a bolsa-escola, a
cesta básica, o desemprego e a desilusão.
Na
falta de governos do povo, pelo povo e para o povo,
não cabe falar em democracia no país.
O regime democrático supõe condições
dignas de vida para todos. Não para poucos. Não
basta estar obrigado a votar para ser cidadão.
É preciso comer mais que 2 mil calorias por dia,
habitar moradia espaçosa, salubre, segura. É
preciso ter acesso a educação e saúde
de qualidade, lazer, atividade cultural, trabalho digno,
transporte coletivo decente, segurança. Nossa
democracia é conceitualmente errada e politicamente
incorreta. Exclui o povo. É um regime de conveniência.
Há que mudá-la. |