Diferenças na mortalidade entre lactentes não gêmeos prematuros tardios e a termo nos Estados Unidos, de 1995 a 2002]
Tomashek KM, Shapiro-Mendoza CK, Davidoff MJ et al, J Pediatr 2007; 151: 450-6. – E.U.A.

HDifferences in mortality between late-preterm and term singleton infants in the United States, 1995-2002.

         Desde 1980 a prematuridade (idade gestacional < 37 semanas) nos Estados Unidos (EUA) aumentou em 30%, e este aumento foi em grande parte à custa da prematuridade tardia (34-36 semanas), que aumentou de 7,3 para 8,9% dos partos (22% de aumento), de 1990 a 2004. O aumento da prematuridade tardia é em parte decorrente de práticas obstétricas, com indução do parto ou cesariana em casos de riscos à mãe ou ao feto. Há uma percepção médica de que isto não seria um problema, com mortalidade ou morbidade neonatal não muito diferente em relação aos nascimentos a termo. O objetivo dos autores foi avaliar as diferenças de mortalidade entre recém-nascidos prematuros tardios (RNPT) e a termo (RNT) de 1995 a 2002 nos Estados Unidos.
Na análise foram excluídas as gestações gemelares. A Taxa de Mortalidade Infantil (TMI) dos RNT caiu progressivamente de 3,0/1.000 em 1995 para 2,4/1.000 em 2002, enquanto a TMI dos RNPT caiu de 9,5 em 1995 para 7,9 em 2002. Portanto, a TMI foi sempre um pouco mais de 3 vezes superior nos RNPT do que nos RNT.
Foi avaliada a taxa de mortalidade infantil específica (TMIE), dada em número de óbitos para cada 100.000 nascidos vivos, para cada causa básica de óbito analisando a somatória dos anos 2000 a 2002. A causa de óbito mais incidente foi a do grupo malformações, deformidades e cromossomopatias, com 332\100.000 nos RNPT e 77/100.000 nos RNT (4,3 vezes maior nos RNPT). As causas seguintes em incidência foram síndrome de morte súbita do lactente (SMSL) (99 X 49/100.000), acidentes (38 X 21), doenças do sistema circulatório (25 X 10), asfixia perinatal (17 X 7), influenza e pneumonia (12 X 5), homicídio (12 X 6), depois sepse neonatal e etc. – vale observar entre parênteses a TMIE no grupo RNPT sempre superando a TMIE no grupo RNT. Na fase neonatal (< 28 dias) predomina o grupo das malformações e deformidades, seguido de outros problemas neonatais. Na fase tardia (28 dias a 1 ano) predomina a SMSL, seguida de malformações e deformidades, acidentes e depois as demais. Nos primeiros 7 dias de vida a TMI nos RNPT é 5 a 6 vezes maior que nos RNT, e duas vezes maior na fase 28 dias a 1 ano. Os autores concluem que a chance de óbito é muito maior na prematuridade tardia do que na gestação a termo e especulam que em grande parte esta diferença deve ser atribuída às próprias condições adversas que motivaram a interrupção precoce da gestação.

COMENTÁRIOS: a neonatologia tem dado grande ênfase, recentemente, à comparação da morbidade e mortalidade dos RNPT e RNT, e várias publicações revelam que as desvantagens são enormes para os que nascem nas três semanas que antecedem as 37 semanas de gestação. Ao mesmo tempo em que tais conclusões são óbvias, são também um alerta para que nenhum profissional, obstetra ou pediatra, minimize os riscos da prematuridade tardia. A importância do tema aumenta na medida em que vem aumentando a porcentagem de nascimentos com este nível de prematuridade nos países desenvolvidos. No caso do Brasil há duas preocupações diferenciadas em relação a tudo isso. Somente 7% dos partos são classificados como prematuros no Brasil, e sabemos que são 9% na Europa e quase 11% nos Estados Unidos. A razão desta discrepância é a má determinação da idade gestacional em nosso país, com o uso do método Parkin, que subestima a detecção de pré-termo e pós-termo. Outra preocupação é a realização abusiva de cesarianas no Brasil, 40% entre os usuários do SUS e mais de 80% entre os usuários da assistência privada. É abusivo, e todos os obstetras concordam com isto. Comodidade, ou vantagem financeira para o obstetra, pode estar gerando grande número de casos de prematuridade tardia, com maior risco de doença neonatal ou morte, em situações que seriam perfeitamente evitáveis. Iatrogenia perniciosa, este é o nome que se pode dar ao ato de induzir ao nascimento de um RN prematuro tardio, com imaturidade pulmonar, e que irá desenvolver insuficiência respiratória em um país que dispõe de leitos de UTI Neonatal, mas que não contrata com bons salários os pediatras especialistas para a assistência de recém-nascidos de risco.
Resumo e Comentários: Aristides Schier da Cruz.