Duplo
fardo da deficiência de ferro no lactente
e baixo nível socioeconômico:
análise longitudinal do escore de testes
cognitivos até os 19 anos
Double
burden of iron deficiency in infancy and low
socioeconomic status: a longitudinal analysis
of cognitive test scores to age 19 years -
Lozoff B, Jimenez E, Smith JB. Arch Pediatr
Adolesc Med 2006; 160: 1108-13
(Costa Rica)
Treze
estudos demonstraram que lactentes com deficiência
de ferro possuem escore cognitivo inferior
ao de lactentes com estado de ferro normal.
Outros 5 estudos revelaram que os escores
permanecem inferiores até a fase escolar
e adolescência, mesmo após a
terapia com ferro e recuperação
do lactente anêmico. Meta-análise
recente estima que para cada 1g/dl de hemoglobina
a menos no lactente, há um prejuízo
médio de 1,73 ponto no coeficiente
de inteligência (CI). O presente estudo
mensurou o desempenho nos testes cognitivos
após deficiência de ferro desde
o 2º ano até os 19 anos de vida,
de acordo com o nível sócio
econômico (NSE).
De 1983 a 1985, 185 lactentes do meio urbano
da Costa Rica tiveram o estado de ferro corporal
analisado (53 com deficiência crônica
de ferro e hemoglobina abaixo < 10,0g/dl
e 132 sem deficiência e com Hb >12g/dl).
As crianças anêmicas foram efetivamente
recuperadas com ferroterapia oral.
No grupo anêmico o peso de nascimento
foi 200g menor e 75% eram meninos, enquanto
no grupo não anêmico 48% eram
meninos. Os 2 grupos tinham as mesmas proporções
de NSE baixo e médio. Nas crianças
de NSE médio, a média do CI
foi 101 para as que haviam sido anêmicas
e 109 para as nunca anêmicas e esta
diferença de 8 pontos no CI persistiu
desde os 5 até os 19 anos. Nas crianças
de NSE baixo o CI inicial foi 93 nas que haviam
sido anêmicas e 103 nas nunca anêmicas,
mas a queda foi progressiva dos 5 até
os 19 anos, e caiu mais no grupo que havia
sido anêmico (CI médio aos 19
anos 70 no grupo previamente anêmico
e 95 no grupo não anêmico).
COMENTÁRIOS:
é grande a fama da seqüência
de estudos que a Dra. Lozoff realizou nesta
coorte de 185 crianças da Costa Rica,
demonstrando aos 5, aos 10 e aos 14 anos,
a persistência de significativo prejuízo
nas condições cognitivas de
indivíduos que tiveram deficiência
de ferro moderada ou grave nos primeiros 2
anos de vida (resultado dos 10 anos - Pediatrics
2000; 105: E51). Pollitt E (J Nutr 2000; 130:
350S) foi muito feliz quando questionou se
a deficiência de ferro por si só
seria a responsável pela deficiência
cognitiva, ou se outras variáveis associadas
à deficiência de ferro e difíceis
de serem identificadas, poderiam ser as responsáveis.
Pois finalmente, nesta última publicação
da famosa coorte da Costa Rica, os pesquisadores
entregam o jogo. As crianças que foram
anêmicas eram 200g mais leves ao nascer,
e agora sabemos que a desnutrição
intra-uterina tem influência negativa
definitiva nas futuras condições
cognitivas. A relação meninos
e meninas, 3:1 no grupo anêmico e 1:1
no grupo não anêmico, pode também
ter influência num país da América
Latina onde meninas têm desempenho escolar
muito superior em comparação
a meninos. Mas, o nível sócio
econômico (NSE), finalmente revelado
pelos autores, teve influência brutalmente
negativa na média do coeficiente de
inteligência (CI). Mas ainda assim persistiu
um pior desempenho nos indivíduos que
tiveram deficiência de ferro. Pode-se
dizer que, em crianças de baixo NSE,
a manutenção de bom estado de
ferro teria efeito protetor sobre o cérebro
e o intelecto futuro. Isto porque a associação
de baixo NSE e anemia intensa e prolongada
no lactente promovem média de CI de
70 aos 19 anos, ou seja, metade destes indivíduos
terá retardo mental (CI médio
é 100; superdotado é acima de
130; retardo mental é abaixo de 70).
No Brasil, conhecer estes fatos causa muita
preocupação.
Resumo
e comentários: Aristides Schier da
Cruz (SPP)