Evolução neuropsicológica de crianças com retardo de crescimento intra-uterino: estudo prospectivo até os 9 anos

Neuropsychological outcome of children with intrauterine growth restriction: a 9-year prospective study.

        Até hoje existe o conceito de que a restrição de crescimento intra-uterino compromete o desenvolvimento neurológico de modo intenso e irreversível quando a causa da desnutrição incide desde o início da gestação e resulta em recém-nascido com desnutrição simétrica (corpo pequeno e cabeça pequena). Acredita-se que a evolução neurológica é favorável quando a desnutrição intra-uterina incide no último trimestre da gravidez e resulta em recém-nascido desnutrido assimétrico (corpo pequeno e cabeça de tamanho preservado). O objetivo deste estudo foi avaliar se ocorre algum comprometimento em longo prazo também nestes casos.
Foram acompanhados anualmente durante 9 anos 123 crianças que sofreram retardo de crescimento intra-uterino tardio (não incluídos casos de infecção intra-uterina e malformações), e comparados a outros 63 que nasceram eutróficos. Prematuridade ocorreu em aproximadamente 30% dos casos nos 2 grupos. O peso médio de nascimento foi 1.850g no grupo desnutrido e 2.830g no grupo eutrófico e o perímetro cefálico (PC) médio foi 3cm menor no grupo desnutrido. Aos 9 anos o grupo desnutrido estava com peso 3 Kg menor, estatura 4 cm menor e PC 1 cm menor. As condições sócio-demográficas e educacionais dos pais eram semelhantes nos 2 grupos.
Com o passar dos anos e aos 9 anos ocorreram algumas diferenças significativas entre os grupos em várias características, sendo 12 a 45% mais provável no grupo que nasceu desnutrido a ocorrência de problemas de memória, dificuldades de aprendizado, dificuldades visuais e motoras, baixa criatividade e dificuldades de linguagem. O coeficiente de inteligência médio em compreensão verbal, leitura e matemática foi 7 a 11 pontos mais rebaixados no grupo nascido desnutrido. Em vários outros parâmetros analisados não houve diferenças entre os grupos.
Os autores encontraram prejuízos significativos no desenvolvimento de crianças nascidas com desnutrição intra-uterina tardia e atribuíram isto ao comprometimento do crescimento cerebral, especialmente de estruturas do lobo frontal, que não conseguem atingir o desenvolvimento ideal nestas condições.

COMENTÁRIOS: esta pesquisa foi de execução muito difícil e exigiu muito fôlego. Apesar de mal escrita, apresenta resultados preciosos para pediatras puericulturistas. Ficou claro que recém-nascidos pequenos para a idade gestacional desproporcionais, aqueles que são vítimas de má circulação placentária por hipertensão arterial materna e tabagismo, também têm um pequeno prejuízo na formação cerebral (a média do PC ao nascer deixa claro que há um prejuízo real no tamanho cerebral), segundo os autores no lobo frontal, com maior chance de ter seu desenvolvimento posterior comprometido. Resultado aproximado também foi encontrado em crianças tratadas de anemia ferropriva nos primeiros 2 anos de vida. Infelizmente os autores não nos apresentaram o modo correto de calcular o índice cefálico [IC = PCneonatal X 102/peso nascimento (g) ??] e nem o valor de referência – talvez exista em livros de neonatologia.
Outros 2 estudos com objetivos um pouco parecidos foram publicados na revista Pediatrics no mesmo ano: 1) Casey PH et al. Pediatrics 2006; 118: 1078-86. 2) Stein REK et al. Pediatrics 2006; 118: 217-23. Ambos foram realizados nos Estados Unidos e os resultados quanto a desenvolvimento neurológico são parecidos com o estudo de Israel.
Resumo e comentários: Aristides Schier da Cruz (SPP)