Infecção ano-genital e de trato respiratório por papilomavirus humano em crianças: idade, gênero e transmissão potencial por abuso sexual.
Sinclair KA, Woods CR, Kirse DJ et al. Pediatrics 2005; 116: 815-25 – E.U.A.

Anogenital and respiratory tract human papillomavirus infections among children: age, gender, and potential transmission through sexual abuse.

       A infecção por papilomavirus humano (HPV) ocorre no mundo todo. Dos 130 tipos conhecidos, um terço causa infecção genital, oral e laríngea, com predomínio dos tipos 6, 11 e 16. Até aqui se acredita que em geral as verrugas e papilomas ano-genitais aparecidas antes dos 2 anos de vida indicam transmissão peri-natal, a partir da mãe, pois o período de incubação é longo. Surgimento de lesões acima de 2 ou 3 anos é geralmente atribuído a abuso sexual. A papilomatose laríngea nunca é atribuída a abuso sexual, manifesta-se nos primeiros anos de vida e ocorre por transmissão vertical, em geral após a tríade que envolve parto vaginal, primeiro filho e mãe de menos de 20 anos. Nos primeiros anos após o início da vida sexual ativa mais de 50% das jovens são portadoras do HPV. O objetivo dos autores foi avaliar a apresentação do HPV em crianças abaixo de 13 anos e sua associação com suspeita de abuso sexual.
De 1985 a 2003 (18 anos), 124 crianças foram atendidas em Escola de Medicina da Carolina do Norte (E.U.A.), com verrugas e papilomas (biópsia feita em 66 casos), 40 delas com lesões laríngeas, 67 ano-genitais, 10 orais e 7 ano-genitais e orais. A média de idade ao diagnóstico foi 4 anos e mediana 3 anos. O aparecimento das lesões teve mediana de 2,2 anos nos casos de HPV ano-genital e 1,9 anos nos de laringe. Das 75 crianças com lesão ano-genital, 55 (73%) foram encaminhadas para o Serviço de Proteção à Criança, para avaliar possível abuso sexual, e apenas em 17 delas o abuso foi considerado possível. A mediana de idade foi 5,3 anos no grupo com possível abuso e 2,6 anos no grupo com abuso descartado. As 49 crianças com lesões orais ou laríngeas não foram encaminhadas para avaliar abuso.
O valor preditivo positivo para possível abuso foi apenas 36% para as crianças de 4 a 8 anos e 70% para as de mais de 8 anos. Os autores concluíram que na maioria das crianças, em todas as idades, a transmissão não é adquirida por abuso sexual. Predominam a transmissão vertical (peri-natal) e a transmissão adquirida, mas de origem não sexual. Cada caso necessita avaliação médica para determinar se há risco de abuso, pois não foi possível definir uma idade abaixo da qual esta hipótese possa ser 100% desconsiderada.

COMENTÁRIOS: esta pesquisa apresenta a maior casuística até hoje de crianças com lesões por HPV ano-genital e laríngea. Joga um balde de água fria sobre todos os preconceitos relativos a abuso sexual em casos desta natureza e inclusive levará a mudanças nas diretrizes em muitos países. Papilomatose laríngea é de transmissão peri-natal, a partir de mãe portadora do vírus. Lesões ano-genitais poucas vezes são causadas por abuso sexual. Não podem ser consideradas evidências de abuso. A acusação de abuso, devastadora para uma família, só poderá ser feita a partir de outras evidências. A transmissão por abuso deve sempre ser cogitada e adequadamente avaliada. Os autores citam estudos que comprovaram que mesmo os casos de aparecimento de lesão muito além dos três anos de vida podem ser por uma transmissão peri-natal que ficou sub-clínica durante muitos anos, ou então adquirida por contato com fômites (toalhas, roupas íntimas usadas, etc.). É uma publicação para ser lida integralmente, pois apresenta muitos detalhes além dos expostos neste resumo.
Resumo e Comenários: Aristides Schier da Cruz