Inflamação,
insulina e função endotelial
em crianças e adolescentes com sobrepeso:
influência do exercício
AInflammation,
insulin, and endothelial function in overweight
children and adolescents: the role of exercise
- Kelly AS, Wetzsteon RJ, Kaiser DR et al.
J Pediatr 2004; 145: 731-6 (E.U.A.)
Mais
de 22% das crianças norte-americanas
estão com sobrepeso. Dados recentes
apontam que a obesidade é independentemente
associada à aterosclerose de coronária
em adultos jovens. Doença cardiovascular
(DCV) desenvolve-se desde criança e
a obesidade e sedentarismo podem acelerar
este processo. O propósito deste trabalho
foi avaliar o efeito de exercício aeróbico
sobre a inflamação, resistência
à insulina e função endotelial
em crianças.
Vinte crianças com índice de
massa corporal (IMC) acima do percentil 85
foram avaliadas em relação à
dilatação mediada por fluxo
(DMF) na artéria braquial, dilatação
induzida por nitroglicerina, proteína
C reativa (PCR), lipídeos, glicose,
insulina, tolerância oral à glicose,
entre outras variáveis. Foram randomizadas
em dois grupos (8 semanas de exercícios
em bicicleta ergométrica; 8 semanas
sem exercícios).
A média de porcentagem de gordura corporal
era 44%. Houve correlação positiva
entre gordura corporal e PCR (r=0,64) e entre
PCR e insulina de jejum (r=0,62) (p=0,001
em ambos). Nos dois grupos (exercício
X sedentário) não houve diferença
significativa após as 8 semanas em
relação a IMC, porcentagem de
gordura corporal, quantidade calórica
ingerida, pressão arterial, triglicerídeos,
colesterol LDL, insulina e glicemia de jejum,
glicemia após 2 horas e PCR. No entanto,
no grupo exercício houve significativa
elevação do pico de VO2 (21,8
para 23,2ml/Kg/min), elevação
do colesterol HDL e da função
endotelial da artéria braquial.
Este é mais um, além de outros
3 estudos (em 2008 já são mais
de 10 estudos), demonstrando que exercício
físico em pouco tempo melhora a função
endotelial arterial em crianças e adolescentes
com obesidade. Ressalta também o achado
de PCR como um marcador inflamatório
relacionado à resistência periférica
à insulina. Muitas citocinas inflamatórias
são estimuladas por tecido adiposo
e talvez esta seja uma das razões de
a obesidade ser associada à resistência
à insulina.
COMENTÁRIOS:
Trata-se de uma amostra de indivíduos
com obesidade intensa, pois o IMC médio
de 30,4 é muito alto para uma média
de idade de 10,9 anos e a porcentagem de gordura
corporal era elevadíssima. Quase metade
das crianças apresentava síndrome
metabólica (dois ou mais entre obesidade,
hipertensão arterial, dislipidemia,
resistência à insulina). Os números
e tabelas desta pesquisa demonstram que o
fato de a amostra ser muito pequena reduziu
o poder da estatística em obter significância
nas diferenças entre os 2 grupos. O
grupo de obesos que realizou 8 semanas de
exercícios teve importante diminuição
na pressão arterial diastólica
e sistólica e na resistência
periférica à insulina. Sabidamente
estes são os parâmetros que melhoram
com a prática de exercícios.
Também a ingestão calórica
ficou 450 Cal/dia menor no grupo que praticou
exercícios, o que nos induz uma série
de pensamentos. Não houve mudança
no IMC, colesterol LDL e triglicerídeos,
e sabidamente estes são os parâmetros
que não mudam com exercícios.
No entanto, é marcante o fato de que,
com amostra tão pequena e em tão
pouco tempo, o exercício físico
seja capaz de melhorar a estrutura e a elasticidade
das paredes arteriais em crianças e
adolescentes com obesidade. Portanto, se a
criança é vítima da obesidade,
ou da hiperlipidemia, ou da resistência
à insulina, e estes são fatores
degenerativos para as paredes arteriais, a
prática de exercícios é
um fabuloso recurso para proteger a saúde
das artérias, em curto ou longo prazo.
Resumo e comentários: Aristides Schier
da Cruz (SPP)