|
Palavra
do Presidente
Dr.
Aristides Schier da Cruz - Triênio 2007/2009
A
INSATISFAÇÃO DO MÉDICO TRADUZIDA
EM NÚMEROS
Aristides
Schier da Cruz
Presidente eleito da Sociedade Paranaense de Pediatria
Contato: sppediatria@hotmail.com
Por que um médico que trabalha como autônomo,
em consultório, sente-se desvalorizado e está
insatisfeito? A resposta é simples: uma consulta
de plano de saúde deveria remunerar R$ 48,00
no mínimo, ou R$ 55,00, para o médico
sentir-se satisfeito. É necessário fazer
alguns exercícios de raciocínio de economia
profissional para entender de onde vieram estes valores.
Parece especialmente interessante comparar o que os
empregos públicos pagam atualmente, com o que
os médicos estão recebendo em consultório
privado. Quando você terminar de ler estes raciocínios
de economia médica, ficará fácil
entender porque os médicos sentem-se desvalorizados
e desmotivados para trabalhar em consultório.
A
– Algumas premissas para balizar as simulações
que serão apresentadas:
a) Quanto é um salário
mínimo (SM)? Um SM é R$ 380,00, a partir
de maio de 2007.
b) Quanto ganha um deputado federal
ou estadual? Ganha 15 salários de R$ 16.000,00
por ano, limpos e sem osso (sem contar os encargos sociais);
que é igual a R$ 240.000,00 por ano; que é
igual à média de R$ 20.000,00 mensais;
que é igual a 53 SM mensais, limpos e sem osso.
Para não ficarmos irritados, não entremos
no mérito das incontáveis comissões
capazes de duplicar este salário, e da contagem
do número de dias que os deputados realmente
trabalham por ano.
c) Quantos SM seriam necessários
para um médico sentir-se satisfeito? Há
sete anos eram pelo menos 20 SM por mês (para
oito horas diárias), mas houve uma valorização
do SM acima da inflação neste período.
Agora podemos dizer: no mínimo 16 SM por mês,
ou 8 SM para 20 horas semanais, limpos e sem osso (sem
contar os encargos sociais). Satisfatório mesmo,
para viver numa capital com alto custo de vida, confortavelmente,
e se ver em segurança para pagar a faculdade
de um ou dois filhos e pagar um imóvel, deveria
ser 10 SM para 20 horas semanais.
d) Quanto custam os encargos sociais?
Para um rendimento equivalente a 8 SM mensais limpos,
os encargos sociais (FGTS, INSS, férias, 13º
salário) representam em média R$ 1.100,00
por mês. Se você é médico
contratado por uma prefeitura municipal talvez os encargos
sociais sejam a metade disto, por ser um emprego público.
e) Quanto é o custo operacional
de um consultório? Varia muito. Só de
ISS são R$ 50,00 por mês. Para 20 horas
semanais, formando grupo de dois ou mais médicos
para dividir as despesas, pode variar de R$ 900,00 a
R$ 1.500,00 por mês. Digamos que um médico
que recebe limpos 8 SM por mês para 20 horas semanais
gostaria de dar uma estrutura de bom padrão para
seus pacientes, ou seja, a mesma estrutura que é
encontrada nas instalações administrativas
de uma sede da UNIMED, Paraná Clínicas,
Clinihauer, Amil, entre outras operadoras de saúde
suplementar, como costumam ser chamadas. Podemos estipular
em R$ 1.350,00 o custo operacional de consultório.
f) Existe comparabilidade entre consultório
privado e consultório em emprego público?
Existe, mas com ressalvas. Em ambos o objetivo é
dar um atendimento médico de consultoria muito
atencioso, oferecendo ao paciente toda a competência
profissional possível da parte de quem atende,
além do respeito eticamente exigido. Se no cargo
público o médico tem que atender quatro
consultas por hora, o que é demais, isto só
pode ser justificado pelo fato de ele contar com uma
equipe que divide com ele as tarefas de pré-consulta
e pós-consulta, e pelo fato de que 16 consultas
para quatro horas está longe de permitir um atendimento
de boa qualidade, mas é o que pode ser oferecido
aos usuários pelo Sistema Único de Saúde
(SUS). No consultório privado o médico
não conta com profissionais de apoio em pré
e pós-consulta, e consegue realizar dois atendimentos
por hora quando alcança grande experiência
profissional (o ideal seria uma consulta a cada 40 minutos,
e se hoje há médicos atendendo três
ou quatro consultas por hora isto é apenas o
reflexo da queda de qualidade de atenção
recebida pelos usuários, a partir da má
remuneração do médico pelos planos
de saúde, ou seja, um reflexo de que o médico
teve que optar entre atender bem e definhar suas economias,
ou atender apressadamente e prosperar).
g) Quantas consultas por mês
o médico deveria atender no consultório
privado? Devemos fazer cálculos para sete a oito
consultas (7,5 consultas) para quatro horas, sendo que
um paciente por dia não irá remunerar,
ou por ser reconsulta, ou porque o paciente faltará
à consulta marcada. São, portanto, 6,5
consultas por expediente de quatro horas, 18 dias em
média por mês (não esquecer que
médico vai a congressos, faz viagens, descansa
alguns dias por ano e dezembro e fevereiro são
meses mais curtos). Portanto, são em média
115 consultas remuneradas por mês.
B
– Quanto deveria remunerar um consulta de plano
de saúde?
a) Para um médico minimamente
satisfeito, ou seja, 8 SM limpos por mês para
quatro horas/dia (R$ 3.040,00 limpos). Deveria receber
R$ 3.040,00, mais R$ 1.100,00 de encargos sociais, mais
R$ 1.350,00 de custo operacional de consultório,
ou seja, um total de R$ 5.500,00. Para 115 consultas
remuneradas por mês, isto representa R$ 48,00
por consulta.
b) Para um médico satisfeito
profissionalmente, ou seja, 10 SM limpos por mês
para quatro horas/dia (R$ 3,800,00 limpos). Deveria
receber R$ 3.800,00, mais R$ 1.100,00 de encargos sociais,
mais R$ 1.350,00 de custo operacional de consultório,
ou seja, um total de R$ 6.250,00. Para 115 consultas
remuneradas por mês, isto representa R$ 55,00
por consulta.
(obs.: algumas estimativas mais radicais, recentes,
demonstram que uma consulta deveria remunerar perto
de R$ 80,00, mas certamente isto refletiria o padrão
de vida de um médico anterior à década
de 1980, irreal para o mercado de trabalho atual da
nossa profissão. Mas deve ficar bem claro: nenhuma
consulta médica em consultório privado
poderia remunerar menos de R$ 48,00).
C
– Quanto remuneram os empregos públicos?
a) Médico contratado por 20
horas semanais pelas prefeituras: é muito variável,
e talvez a remuneração seja mais baixa
aonde o custo de vida é maior, como nas capitais
do país. Talvez nas capitais o salário
esteja em R$ 1.900,00 limpos (5 SM, ou seja, bastante
insatisfatório para um médico –
10 SM por mês para 40 horas semanais representam
9 a 18% do que ganha um deputado, e a população
valoriza muito mais o trabalho de um médico do
que o de um deputado). Pode representar R$ 2.400,00
se forem considerados os encargos sociais. Mas esta
situação muito ruim ocorre nas capitais,
pois em municípios do interior o salário
chega a ser superior a R$ 3.000,00 limpos.
b) Médico contratado por 40
horas semanais pelo Programa de Saúde da Família
(PSF): varia de um município para outro, de R$
5.000,00 a R$ 8.000,00 ao mês, estando em média
em R$ 6.500,00 limpos, sem contar os R$ 1.100,00 de
encargos sociais. Estes R$ 6.500,00 limpos correspondem
a R$ 3.250,00 para 20 horas semanais, ou seja, 8,5 SM
limpos mensais, o que faz do PSF um dos melhores salários
médicos do Brasil.
c) Médico que atende aos usuários
do SUS como plantonista e horista (sem contrato de trabalho)
em Unidades 24 horas, emergências hospitalares,
enfermarias e UTIs: não há nenhuma possibilidade
de se fazer estimativas, mas as remunerações
são baixas e sem encargos sociais. Com a ausência
de vínculo empregatício, é comum
o médico abandonar a trabalho e os pacientes
ficarem sem atendimento.
D
– Quanto remuneram os planos de saúde?
(para os exercícios abaixo, consideremos que
o médico atendesse apenas a um plano de saúde)
a)
Os que pagam R$ 42,00 por consulta (CBHPM): 115 consultas
por mês X R$ 42,00 = R$ 4.830,00; menos R$ 1.350,00
de custo operacional do consultório = R$ 3.480,00;
menos R$ 1.100,00 de encargos sociais = R$ 2.280,00,
ou seja, 6 SM limpos por mês (pouco melhor que
a remuneração de emprego público
de 20 horas semanais).
b)
Os que pagam R$ 36,00 por consulta (é a UNIMED-Curitiba?):
115 consultas por mês X R$ 36,00 = R$ 4.140,00;
menos R$ 1.350,00 de custo operacional do consultório
= R$ 2.790,00; menos R$ 1.100,00 de encargos sociais
= R$ 1.690,00, ou seja, 4,4 SM limpos por mês
(menos que a remuneração de emprego público
de 20 horas semanais).
c)
Os que pagam R$ 33,00 por consulta (é a UNIMED-Curitiba?):
115 consultas por mês X R$ 33,00 = R$ 3.795,00;
menos R$ 1.350,00 de custo operacional do consultório
= R$ 2.445,00; menos R$ 1.100,00 de encargos sociais
= R$ 1.345,00, ou seja, 3,5 SM limpos por mês
(muito menos que a remuneração de emprego
público de 20 horas semanais).
d)
Os que pagam R$ 30,00 por consulta: 115 consultas por
mês X R$ 30,00 = R$ 3.450,00; menos R$ 1.350,00
de custo operacional do consultório = R$ 2.100,00;
menos R$ 1.100,00 de encargos sociais = R$ 1.000,00,
ou seja, 2,5 SM limpos por mês.
e)
Os que pagam R$ 25,00 por consulta: 115 consultas por
mês X R$ 25,00 = R$ 2.875,00; menos R$ 1.350,00
de custo operacional do consultório = R$ 1.525,00;
menos R$ 1.100,00 de encargos sociais = R$ 425,00, ou
seja, 1,1 SM limpo por mês.
D
– Conclusões:
a) Em nenhuma situação
o médico está trabalhando no negativo
em seu consultório (desde que ele atenda 115
consultas por mês), pois ao menos ele consegue
cobrir seus custos de consultório e até
contar com um bom FGTS, INSS, 13º salário
e auxílio de férias. Mas, tirando tudo
isto, restam-lhe apenas 1 a 6 SM para viver naquele
mês.
b) Esta baixa remuneração,
que na melhor das hipóteses ultrapassa um pouco
os ganhos de um médico contratado em emprego
público por 20 horas semanais, certamente reflete
toda a frustração atual do médico
brasileiro, além de deixar claro que os usuários
do sistema suplementar correm o sério risco de
estarem sendo mal atendidos, pois pode estar faltando
entusiasmo a seus médicos, os quais estão
lhes dedicando pouco tempo por consulta.
c) Médicos que conseguem atender
12 consultas em quatro horas e estão satisfeitos
com o que ganham, poderiam estar atendendo seis consultas
e ganhando o mesmo tanto, se a remuneração
da consulta fosse dobrada, e assim estariam executando
trabalho de melhor qualidade. Todos atenderiam menos
consultas. Os pacientes necessitariam de menos consultas
por ano, menos exames complementares seriam solicitados,
tudo isto a partir de uma consulta de melhor qualidade.
Em resumo: o médico está trabalhando muito
para ganhar pouco, e os pacientes, insatisfeitos, buscam
vários médicos para resolver o mesmo problema
de saúde.
d) Com tudo isto fica esclarecido um
dos motivos de 40% dos consultórios pediátricos
terem sido fechados em várias capitais brasileiras.
E
– Propostas claras e objetivas:
(quer envolvam negociações com a ANS ou
com as operadoras de saúde, ou não)
a) Toda operadora de saúde deve
pagar ao médico entre R$ 48,00 e R$ 55,00 por
consulta. Qualquer operadora que pague menos do que
isto deve no mínimo oferecer suas próprias
dependências para o médico trabalhar, isentando
assim o médico dos custos operacionais do consultório.
b) Não há problema se
uma operadora de saúde paga ao médico
R$ 38,00 por consulta, desde que ela contrate o médico
para atender em suas dependências, pois assim
o médico fica livre dos custos operacionais do
consultório.
c) Não há problema se
uma operadora de saúde paga ao médico
R$ 25,00, R$ 30,00, R$ 33,00, R$ 36,00 ou R$ 42,00 por
consulta, desde que seja obrigatório que o paciente
pague pela consulta um suplemento respectivamente de
R$ 25,00, R$ 20,00, R$ 17,00, R$ 14,00 ou R$ 8,00. Os
usuários dos planos de saúde serão
esclarecidos sobre os motivos deste pagamento extra
na consulta, pois o sistema de seguro de saúde
visa dar segurança econômica para os momentos
de grandes despesas com situações de alto
custo. Caso alguém esteja muito mal de saúde,
e necessite quatro consultas em um mês, isto lhe
custará apenas R$ 32,00 a R$ 100,00 a mais, só
naquele mês. Para os usuários comprovadamente
carentes, haverá um fundo em que a operadora
lhes cobrirá este custo a mais.
(obs: este cenário só existirá
depois que toda a legislação e normas
vigentes deixarem de existir, mas esta é a solução
mais viável e justa para a atual situação)
d) A UNIMED-Curitiba poderia pagar
menos que as outras operadoras, ou seja, R$ 45,00 por
consulta (ou mais), e não R$ 48,00 (ou mais),
devido ao grande benefício que os médicos
cooperados têm com o PAC (plano de assistência
ao cooperado), cujos custos são francamente subsidiados
pela cooperativa. Pagamento de 115 consultas por mês
a R$ 3,00 a menos por consulta significa R$ 340,00 a
mais por mês para cada médico cooperado
formar o seu PAC. Como cada médico produz uma
quantidade diferente de trabalho, o ideal seria que
a UNIMED-Curitiba pagasse realmente os R$ 48,00 ou mais
por consulta e cobrasse à parte o PAC correspondente
de cada médico cooperado, sem subsidiar nada.
Do modo como está agora, os médicos que
trabalham bastante para a cooperativa estão pagando
o PAC dos médicos que só estão
na cooperativa para usufruir do PAC.
(obs - sofri uma doença grave há dois
anos atrás, e no final daquele ano recebi comunicado
da UNIMED-Curitiba de que o PAC havia gasto R$ 16.500,00
com o meu diagnóstico e tratamento. Neste ano
tive alguns problemas e acho que já foram gastos
R$ 1.500,00 a mais. Esta é a razão de
ser de um seguro de saúde: evitar as grandes
despesas que nos pegam de surpresa a qualquer momento.
Acho que em 16 anos como médico cooperado devo
ter dado uma despesa total ao PAC de R$ 20.000,00, e
provavelmente estou acima da média geral de despesa
que cada médico, ou familiar de médico,
gera para o PAC)
observação
final: (SOBRE A LEI DO MERCADO). Apesar de
a profissão médica ser historicamente
liberal, no Brasil ela é uma profissão
70% socialista, pois 70% da população
brasileira recebe atendimento médico pelo SUS.
Ainda hoje, 30% da atividade médica no Brasil
é liberal, e boa parte desta é realizada
através da consulta médica. Nos últimos
10 anos a consulta médica passou a ser muito
mal remunerada. Nenhuma idéia boa apareceu em
todo o Brasil para resolver este problema. Os médicos
estão nas mãos das operadoras de saúde,
da ANS, dos legisladores e do Código do Consumidor.
Os médicos caíram como reféns e
nenhuma idéia boa surgiu no sentido de libertá-lo.
Quando isto ocorre, entra em ação a lei
do mercado. Há 3 anos atrás algumas operadoras
de saúde pagavam tão mal a consulta, que
os médicos passaram a cobrar consulta pelo SINAN
(R$ 50,00) ou o quanto quisessem, e davam recibo para
o paciente ir resgatar uma parte do dinheiro com a operadora.
Isto aconteceu pelo fato de o número de usuários
destas operadoras ser pequeno e cada médico atender
poucas consultas por mês. Alguns anos antes, sim,
mas agora o usuário não conseguia mais
marcar consulta com o médico que desejasse sem
pagar a consulta. Então, há três
anos atrás, estas operadoras de saúde
elevaram bastante o pagamento da consulta médica,
pois recebiam muita pressão por parte de seus
usuários. Até mesmo a UNIMED-Curitiba
teve que aumentar um pouco. Isto é a lei do mercado.
Quando nenhum acordo comercial funciona entre as partes,
então prevalece a lei do mercado. Ela é
implacável. Tão natural e imutável
quanto a força da gravidade e o pôr do
sol no fim da tarde. Quando a lei do mercado impera,
isto significa que as negociações entre
as partes falharam. Colegas médicos, gerentes
das operadoras de saúde e usuários dos
planos, prestemos todos atenção à
lei do mercado. Ela é simples e poderosa. O mercado
das consultas médicas existe. Os brasileiros
que não querem ser usuários do SUS irão
recorrer a este mercado. Necessitam do médico
e estão dispostos a pagar por seu serviço.
O médico, como qualquer profissional, cobra um
preço por seu trabalho. Ele realiza a consulta
médica desde que lhe paguem um determinado valor
e muitos brasileiros necessitam da consulta médica
e estão dispostos a pagar. A lei do mercado não
falha: caso todas as normas e legislações
vigentes pesem no sentido de que o médico não
receberá o valor que seu trabalho vale, o médico
não realizará mais o trabalho conforme
o que estão querendo lhe pagar. Normas e legislações
ficarão falando sozinhas. O mercado das consultas
médicas continuará existindo e os pacientes
irão pagá-las ao médico por fora
das normas e legislações. E isto será
a concretização da vergonha para todos
nós, médicos, operadoras de saúde,
legisladores e usuários. Não tivemos capacidade
de diálogo, de negociação. Não
adiantará nada este culpar aquele, e aquele culpar
um outro, pois, vergonhosamente para todos nós,
terá prevalecido a LEI DO MERCADO.
Curitiba,
09 de março de 2007
|