Investigação prospectiva da epidemiologia da ressuscitação cardiopulmonar pediátrica intra-hospitalar usando o método internacional Utstein Style
Reis AG, Nadkari V, Perondi, MB et al. Pediatrics 2002; 109: 200-9 – Brasil

A prospective investigation into the epidemiology of in-hospital pediatric cardiopulmonary resuscitation using the international Utstein reporting Style

      É difícil a interpretação de dados sobre ressucitação cardiopulmonar [RCP] intra-hospitalar em crianças porque os estudos são retrospectivos, de amostras pequenas, e as definições de parada cardíaca e RCP são inconsistentes. O propósito deste estudo foi descrever a prática e resultados da RCP intra-hospitalar em crianças utilizando as definições epidemiológicas derivadas do consenso internacional do Utstein guidelines.
obs – Utstein – cidade da Noruega onde os especialistas se reuniram.
Todos os 129 casos de RCP ocorridos em crianças, de julho de 1997 a junho de 1998, no Instituto da Criança, hospital universitário pediátrico de 122 leitos em São Paulo, foram prospectivamente avaliados pelas diretrizes intra-hospitalares de Utstein [1994]. RCP foi definida como compressão toráxica e ventilação assistida devido a parada cardíaca [PC] ou bradicardia grave com má perfusão [BGMP]. As variáveis de evolução analisadas foram: retorno à circulação espontânea, sobrevida após um dia, 30 dias e um ano e estado neurológico dos sobreviventes.
Nos 12 meses de estudo foram internados 6.024 pacientes na instituição, e 176 deles [3%] tiveram PC ou BGMP, sendo realizada RCP em 129 [2%] – 677 eram de UTI Pediátrica, dos quais 94 [14%] receberam RCP. Em 47 pacientes foi declarada a morte sem realizar RCP, por estarem em fase terminal de doença crônica, incurável e debilitante. Dos 129 que receberam RCP [mediana de idade = 1 ano, variação 3 dias a 21 anos] 46 nunca retornaram à circulação espontânea, mas 83 retornaram. Dos 83 pacientes recuperados após a primeira RCP, 40 estavam mortos após 24 horas e outros 21 morreram nas semanas seguintes, 43 estavam vivos após 24 horas, 24 após 1 mês, 20 após 6 meses e 19 após 1 ano [15% dos que receberam RCP]. A chance de sobrevida em 24 horas foi maior [47% x 12%] nos casos precipitados por insuficiência respiratória comparados com os por outras causas [P<0,001], menor [8% x 44%] nos casos por choque [quase todos choque séptico] em comparação com os por outras causas [P<0,001], e menor [20% x 50%] nos casos de PC em comparação com os casos de BGMP [P<0,001]. A maior a duração das manobras de RCP, é indicativa de menor chance de sobreviver. Dos 21 pacientes que tiveram alta hospitalar, sete possuíam déficit neurológico anterior ao evento, e 19 dos 21 estavam na alta com a mesma condição neurológica anterior ao internamento. Dos 19 pacientes que sobreviveram 1 ano, 16 mantiveram a mesma performance neurológica anterior ao internamento, sendo 13 deles neurologicamente normais. Somente 2 dos 37 pacientes com choque sobreviveram por 1 ano, ambos muito comprometidos neurologicamente: um com doença neurológica prévia, outro como seqüela após RCP.
A situação com maior chance de sobrevida sem seqüela neurológica é aquela em que: 1] o fator precipitante é insuficiência respiratória [metade dos casos]; 2] há presença de alguma pulsação ao iniciar a RCP; 3] quando a RCP é de duração mais curta. Os casos de choque séptico são de péssimo prognóstico.

COMENTÁRIOS: este importante estudo brasileiro representa um marco na organização de dados sobre causas de PC em crianças hospitalizadas, recursos utilizados na RCP e evolução prognóstica posterior. Para os que trabalham em UTI, enfermaria ou emergência pediátrica, há muito que aprender com esta publicação, afinal são estes os profissionais que enfrentam as grandes decisões e expectativas: não reanimar e deixar por conta da natureza; reanimar com boas esperanças; reanimar com poucas esperanças; como estar organizado para reanimar.
Resumo e comentários: Aristides Schier da Cruz (SPP)