Mudanças na neonatologia: comparação de duas coortes de lactentes muito prematuros (idade gestacional < 32 semanas): POPS-1983 e LFUPP-1996/97 - Gerlinde MS et al. Pediatrics 2005; 115: 396-405 – Holanda

Changes in neonatology: comparison of two cohorts of very preterm infants (gestational age < 32 weeks): The Project on Preterm and Small for Gestational Age Infants 1983 and The Leiden Follow-Up Project on Prematurity 1996-1997.

       A perinatologia mudou muito com o passar dos anos. A sobrevivência de recém-nascidos (RNs) de risco aumentou e o limite de viabilidade é sempre desafiado. Os autores neste estudo compararam as características neonatais, recursos tecnológicos disponíveis, mortalidade e complicações mórbidas em prematuros da era pré-surfactante e pós-surfactante.
Foram incluídos os RNs de menos de 32 semanas de idade gestacional (IG) em dois períodos diferentes em regionais de saúde da província Zuid-Holland, onde nascem quase 9% das crianças holandesas: 102 nascidos em 1983 e 266 nascidos nos anos 1996 e 1997 (133 por ano). Houve aumento de 12% de RNs muito prematuros de 1983 para os anos 1990 (0,65% para 0,76% dos nascidos vivos).
A média de idade gestacional foi igual nas duas fases (39 semanas) e também a média de peso de nascimento (1.250g). A centralização das Unidades de Cuidado Neonatal melhorou entre os dois períodos, com o transporte extra-uterino diminuindo de 61% em 1983 para 35% em 1996-97. O tabagismo materno diminuiu de 24% apara 15% e a idade materna aumentou de 27 para 31 anos. O uso de antibióticos na gestante aumentou de 10% para 29%, e o de corticóide antenatal aumentou de 6% em 1983 para 73% em 1996-97. Nesta última fase 42% dos prematuros receberam surfactante. A mortalidade hospitalar caiu de 30% em 1983 para 11% em 1996-97. A mortalidade dos extremamente prematuros (IG <27 semanas) caiu de 76% para 33%. A incidência da síndrome de angústia respiratória permaneceu a mesma (60%), mas a mortalidade por esta causa caiu de 29% para 8%. Ventilação mecânica aumentou de 63% RNs (média de 5 dias) para 78% (9 dias). Pneumotórax diminuiu de 15% para 6%. A incidência de hemorragia intraventricular permaneceu em 74% (5 a 7% grau 3 ou 4) e de enterocolite necrosante em torno de 5%. A incidência de displasia broncopulmonar aumentou de 6% para 19%, mas a de encefalopatia no período hospitalar permaneceu em torno de 13%. O tempo médio de internamento na UTI neonatal foi, para os sobreviventes, em torno de 43 dias nos 2 períodos.

COMENTÁRIOS: os neonatologistas que lerem esta publicação na íntegra terão à disposição grande coletânea de informações. Para os pediatras em geral é um estudo que permite a exata noção dos avanços conquistados pela perinatologia em algumas décadas. Lembro de ter lido pesquisas com objetivos e métodos semelhantes também de outros países. No resumo deste trabalho holandês coloquei apenas informações sobre o que mudou significativamente nas duas fases e o que foi notável por não ter mudado. Algumas observações marcantes:
1. com o progresso da ciência médica a prematuridade aumenta, mas a sobrevida dos prematuros também aumenta.
2. a disponibilidade de maternidades equipadas com UTI neonatal e profissionais especializados aumentou: de um terço passaram a ser dois terços os RNs muito prematuros que já nascem no hospital certo. Sabe-se de outros estudos que, ter que ser transportado para uma UTI neonatal após nascer, aumenta 2 a 3 vezes a mortalidade.
3. os grandes avanços nas últimas décadas foram o uso de antibióticos na gestante, corticóide antenatal, surfactante, ventilação mecânica e tratamento de infecções neonatais.
4. a mortalidade em qualquer nível de prematuridade diminuiu para um terço do que era antes.
5. as seqüelas aumentaram às custas da displasia broncopulmonar, mas não às custas da encefalopatia crônica.
6. com o aumento da sobrevivência as vagas de UTI neonatal ficam ocupadas por um tempo médio maior.
LAMENTÁVAEL: No Brasil a mortalidade neonatal reduz lentamente porque não há equipes de neonatologistas e intensivistas contratados com bons salários, e a cobertura às UTIs que atendem ao SUS é ruim por este motivo. O custo que o contrato destes profissionais iria gerar é muito baixo (menos de 1% dos recursos para a saúde). Sem eles, nossa situação é
parecida com a da Holanda em 1983 (mortalidade 3 vezes maior).
Resumo e comentários: Aristides Schier da Cruz (SPP)