Reduzindo
o crescimento em crianças com grave
retardo de desenvolvimento: nova proposta
para um velho dilema
Attenuating
growth in children with profound developmental
disability: a new approach to an old dilemma
- Gunther DF, Diekema DS – Estados Unidos
– Arch Pediatr Adolesc Med 2006; 160:
1013-7.
Os
autores relatam o caso de menina de 6,5 anos
trazida ao serviço de endocrinologia
pediátrica em Seattle (EUA) por apresentar
puberdade precoce. Alterações
neurológicas graves iniciaram após
1 mês de vida e ela desenvolveu paralisia
cerebral grave, de causa desconhecida para
os neurologistas e geneticistas. Aos 6 anos
apresenta paralisia total, é alimentada
por tubo de gastrostomia, mas demonstra contato
com o meio e responde afetivamente com vocalizações
e sorrisos. Há consenso entre neurologistas
de que não haverá melhora em
seu desenvolvimento. Possui dois irmãos
e os cuidadores são os próprios
pais, que possuem curso superior.
Há um ano ocorreu a pubarca e há
3 meses telarca. Os pais estão preocupados
com seu crescimento acelerado, pois a estatura
avançou do percentil 50 para o 75 em
6 meses. Temem pelo futuro em longo prazo,
pois sua filha ficará muito grande
e talvez não poderá mais ser
cuidada por eles em casa, por mais que a amem,
e estão preocupados porque ela terá
menstruações. Após discussão
entre quatro especialistas diferentes, inclusive
o comitê de ética, optou-se pelos
dois procedimentos seguintes: 1) estrógeno
em alta dose (estradiol injetável diário),
para atenuação do crescimento;
2) histerectomia. Não houve complicações
e agora ela está com quase 8 anos e
o crescimento está quase parando.
Os autores argumentam sobre os potenciais
benefícios do tratamento para o futuro
da criança e sobre questões
éticas relacionadas ao caso. Discutem
o sucesso do uso de estrógeno em atenuar
o crescimento e possíveis riscos em
sua utilização.
COMENTÁRIOS:
este não é um relato de caso
qualquer. Ganhou espaço na mídia
leiga mundial. As opiniões foram desfavoráveis
e, durante um ano, os pais foram duramente
argüidos e contestados, bem como os autores
(Gunther – endocrinopediatria; Diekema
– bioética pediátrica),
em todos os programas de televisão
populares norte-americanos. No Brasil o caso
foi apresentado nos telejornais e na revista
Veja. A menina estava com 10 anos. No mesmo
exemplar da revista Arch Pediatr Adolesc Med
foi publicado um editorial (escrito por Brosco
JP e Feudtner C – Miami) com críticas
severas às decisões dos autores
do trabalho. Estes editorialistas fazem uma
profunda reflexão sobre a proposta
dos autores de atenuar o crescimento de crianças
com paralisia cerebral “quando os pais
solicitarem”. Colocam questões
fundamentais: se o tratamento terá
êxito no sentido de que os pais cuidarão
dela por mais tempo e ela será mais
feliz; se temos o direito de determinar dimensões
corporais e intervir (tamanho corporal total,
formato de nariz, tamanho dos seios); se não
há aqui um condenável ato de
eugenia; se não estamos colocando mais
um grande fardo sobre as costas dos pais de
encefalopatas crônicos (uma “escolha
de Sofia” – vocês não
desejariam interromper o crescimento de seu
filho?), quando sabemos quantas questões
sérias eles têm de resolver (nutrição
enteral, cirurgias ortopédicas, pneumopatias,
anticonvulsivantes, fisioterapia, etc.).
Este é um caso que vazou na imprensa,
com evidente entusiasmo dos protagonistas,
pais e médicos, em defender suas posições.
Foi uma proposta até aqui rejeitada,
mesmo diante da reconhecida dificuldade em
se cuidar de um deficiente grave com peso
corporal grande. Quem conhece puberdade precoce
sabe que esta menina, no percentil 75 aos
6 anos, naturalmente teria estatura final
de adulto abaixo do percentil 3. Nenhuma intervenção
seria necessária. Mas, o mais chocante
foi a histerectomia, realizada para evitar
os incômodos das menstruações
e eventuais abusos sexuais e gestação
indesejada. Isto foi inaceitável.
Vale muito ler, no mesmo exemplar da Arch
Pediatr Adolesc Med (Lee JM, Howell JD. 2006;160:
1035-9), o artigo intitulado “Tall girls:
the social shaping ......”. É
uma revisão histórica preciosa
sobre a época em que era indesejável
para as mulheres ter estatura grande. Foi
moda nos anos 1960 e 1970 procurar os endocrinologistas
pediátricos para interromper o crescimento
de meninas altas, com uso de estrógeno
em altas doses. Quanto contraste em relação
ao atual desejo das meninas e das mulheres!
Resumo e comentários: Aristides Schier
da Cruz (SPP)