Risco cardiovascular e excesso de adiposidade em crianças e adolescentes com sobrepeso: Bogalusa Heart Study

Cardiovascular risk factors and excess adiposity among overweight children and adolescents: The Bogalusa Heart Study -Freedman DS, Mei Z, Srinivasan SR et al. J Pediatr 2007; 150: 12-7 (Estados Unidos)

     Bogalusa Heart Study é um conjunto de estudos transversais, com reavaliações longitudinais, realizados em uma comunidade da Luisiana (EUA). Avalia em escolares as condições e evolução dos fatores de risco para doenças cardiovasculares. A coleta de dados vem desde 1973 até 2004. Neste estudo os autores tiveram os objetivos de avaliar qual nível de percentil (P) do índice de massa corporal (IMC) na criança e adolescente é apropriado para definir grande risco de doença cardiovascular (CV), de excesso de adiposidade e de se tornar adulto obeso.
Foi realizado estudo transversal com 6.731 indivíduos de 5 a 17 anos de idade, analisando o IMC e 6 fatores de risco CV: triglicerídeos, colesterol LDL, colesterol HDL, insulina de jejum, pressão arterial sistólica e pressão arterial diastólica. Outro estudo foi longitudinal, com 2.392 indivíduos de 5 a 14 anos, reexaminados quando adultos, para avaliar a relação entre obesidade na criança e adulto.
Indivíduos com IMC abaixo do P85 têm menos de 10% de chance de ter 2 ou mais fatores de risco CV e não possuem excesso de adiposidade (prega cutânea triceptal > P90). Os que estão com IMC na faixa de P85 e P95 (sobrepeso) possuem 19% de chance de ter 2 ou mais fatores de risco CV, e apenas 13% têm excesso de adiposidade. A partir do P95 do IMC o aumento das condições adversas é rapidamente progressivo: 2 ou mais fatores de risco CV em 21% dos indivíduos no P95 e em 59% nos acima do P99, e excesso de adiposidade em 38% dos indivíduos no P95 e em 98% nos acima do P99. Das crianças com sobrepeso (IMC P85 a P95) 50% tornaram-se adultos com obesidade (IMC>30) e 5 a 13% adultos com obesidade grave (IMC>40). Das crianças com IMC no P95 a P98 84% se tornaram adultos com obesidade e 34% adultos com obesidade grave. Das crianças com IMC > P99, 100% se tornaram adultos obesos e 65% adultos com obesidade grave.
Os autores sugerem que o nível de corte P99 do IMC em crianças e adolescentes seja utilizado como critério prognóstico, pois detecta o grupo de obesos com risco muito alto de possuir fatores de risco CV, excesso de adiposidade e desenvolvimento futuro de obesidade grave na vida adulta.

COMENTÁRIOS: é um estudo espetacular, difícil de ser resumido, pois suas tabelas trazem uma riqueza de informações muito maior. É possível avaliar o efeito prognóstico de cada nível de percentil de IMC, desde os mais baixos até os mais altos, e também com as chances de ter mais de 1, mais de 2, mais de 3 e mais de 4 fatores de risco CV, em cada nível de percentil de IMC. A conclusão dos autores é totalmente correta. E preocupa saber que em todo o mundo ocidental a prevalência populacional das formas mais graves de obesidade não parou ainda de aumentar. Em adultos norte-americanos a prevalência de IMC>40 quadruplicou de 1986 ao ano 2000 (era 0,5% e passou a ser 2% da população). Dos anos 1970 até o ano 2002, e isto é assustador, a prevalência de crianças e adolescentes com IMC > P99 aumentou de 1% para 4% (também quadruplicou). Vale a pena conhecer o valor do P99 do IMC para cada idade e sexo, que os autores felizmente fizeram aparecer na tabela IV (ver na página seguinte).

Resumo e comentários: Aristides Schier da Cruz (SPP)