Saúde de crianças nascidas a partir de
fertilização in vitro

Health of children born as a result of in vitro fertilization
Klemetti, R, Sevón T, Gissler M, et al. Pediatrics 2006; 118: 1819-27.

         O objetivo deste interessante estudo realizado na Finlândia foi avaliar naquele país, a partir de registros nacionais, a saúde até os quatro anos de idade das crianças nascidas como resultado de fertilização in vitro (FIV). O grupo FIV foi composto 4.559 crianças nascidas de 1996 a 1999, e o grupo controle pelas 190.398 crianças nascidas no mesmo período, não resultantes de FIV. Portanto, naquele país, 2,5% das crianças nascem a partir FIV.
         A maior diferença entre os grupos é a porcentagem de gestações múltiplas (gêmeos e trigêmeos), sendo 36% no grupo FIV e 2,2% no grupo controle. Esta é uma diferença tão séria que os autores tiveram que fazer três análises separadas: 1) comparação de todos os do grupo FIV com todos os do grupo controle; 2) comparação entre os nascidos de gestação simples nos 2 grupos; 3) comparação apenas entre os nascidos de gestação múltipla nos 2 grupos.
        Nas três análises a média de idade materna foi 4 anos maior no grupo FIV (34 x 30 anos de idade); o nível sócio-econômico foi mais alto no grupo FIV; a chance de a mãe ter complicações e ficar internada foi mais do que o dobro no grupo FIV. Devido à grande porcentagem de gestações múltiplas a chance foi muito maior no grupo FIV de ocorrer prematuridade extrema (< 32 semanas), peso de nascimento (< 1.500g e < 2.500g), necessidade de UTI Neonatal e ventilação mecânica. A mortalidade perinatal foi quase o dobro no grupo FIV (OR 1,85 – IC95% 1,40 a 2,44). A taxa de natimortos foi quase o dobro no grupo FIV mesmo levando em conta apenas as gestações não múltiplas. Com relação às condições de saúde até os 4 anos, as condições significativamente mais prevalentes no grupo FIV foram paralisia cerebral (OR=2,92 – IC95% 1,63 a 5,26) e desordens de comportamento (OR=1,68). A incidência foi igual em relação a epilepsia, diabetes, asma, alergia, pneumonia e diarréia. A ocorrência de hospitalizações (curtas ou prolongadas) foi 40% maior no grupo FIV do que no grupo controle.

COMENTÁRIOS:
1. Quase 200.000 crianças em três ou quatro anos pode parecer uma amostra muito grande, mas este número de crianças nasce no Paraná em apenas 16 meses. O fato é que a população da Finlândia é bem menor do que a do Paraná, e a natalidade também é menor.
2. Os pediatras que trabalham em UTI neonatal que presta assistência ao sistema de saúde privada têm observado que grande parte dos recém-nascidos de risco são produtos de fertilização in vitro associados a gemelaridade, trigemelaridade, prematuridade e diversas complicações neonatais. Este perfil não é observado com tanta frequência na população usuária do SUS.
3. Os autores, na discussão, especularam bastante a respeito de possíveis vieses. Entre eles, levaram em conta o fato de que produtos de FIV são supervalorizados tanto pela família quanto pelas equipes médicas, aumentando a chance de haver hospitalização de curta ou longa duração, tanto para a gestante quanto para a criança..
4. Chamou a atenção o fato de que mesmo nas gestação que não são múltiplas há chance significativamente maior de natimortalidade no grupo FIV. Isto gera a preocupação sobre possíveis debilidades embrionárias e fetais favorecidas pela fertilização artificial. No entanto, é preciso lembrar que a idade materna é mais avançada nestes casos e isto pode justificar inclusive o maior número de complicações obstétricas maternas e neonatais.