Soroprevalência do virus Herpes simplex tipo 1 em crianças nos Estados Unidos

Seroprevalence of Herpes Simplex Vírus Type 1 in children in the United States - Xu F et al. J Pediatr 2007; 151: 374-7 – Estados Unidos

        O herpes simplex tipo 1 (HSV-1) é no mundo todo uma infecção transmitida entre crianças. Em geral é assintomática, ou então faz gengivoestomatite. É a principal causa de encefalite e amaurose corneana em países desenvolvidos. Na fase neonatal o quadro é devastador. Com a contínua melhora das condições de higiene, a aquisição do HSV-1 tem diminuído, e assim os adolescentes ficam susceptíveis de adquirir herpes genital pelo HSV-1 nos países desenvolvidos. Há três novos pensamentos a respeito do HSV-1 e HSV-2: 1) a causa mais comum de herpes genital é o HSV-2, mas alguns jovens terão herpes genital por HSV-1, por estarem susceptíveis; 2) quem não teve HSV-1 prévio, poderá ter herpes genital por HSV-2 clinicamente mais grave, pois não possui imunidade prévia; 3) vacina contra HSV-2 para meninas pré-púberes, já em testes, só funciona bem em quem não teve o HSV-1, de modo que a perspectiva de utilidade desta vacina aumentará se realmente o HSV-1 em crianças diminuir.
O objetivo dos autores foi avaliar a soroprevalência do HSV-1 em crianças nos E.U.A. e examinar fatores associados à infecção por HSV-1 em crianças. Foram examinadas amostras de soro de 2989 crianças de 6 a 13 anos do estudo transversal nacional NHANES 1999-2002 e comparadas com as amostras do estudo NHANES III 1988-1994 em crianças de 12 e 13 anos (tempo de 9,5 anos entre as duas pesquisas).
No estudo NHANES 1999-2002 a soroprevalência de HSV-1 foi 31% das crianças, aumentando de 26% aos 6 e 7 anos para 36% aos 12 e 13 anos. Foi semelhante em meninos e meninas, mas diferiu significativamente conforme etnia, país de nascimento e nível de pobreza (todos com P<0,001). A média de positividade foi 25% nos não hispânicos brancos, 48% nos não hispânicos negros, 42% nos americanos mexicanos e 31% em outras raças. Foi 30% nos nascidos nos E.U.A. e 43 a 59% nos imigrantes, conforme o país. Foi 52% nos pobres e 24% nos que estão acima do nível de pobreza. A tendência entre os dois períodos em que foram analisados indivíduos de 12 e 13 anos foi de queda, com 40% no período 1988-1994 e 36% no período 1999-2002, apesar de a diferença não ser significativa (P=0,3). Os autores concluem que o HSV-1 infecta mais de 25% das crianças norte-americanas até os 7 anos e que sua soroprevalência é fortemente afetada por etnia, país de origem e nível de pobreza.

COMENTÁRIOS: é uma publicação que nos abre os olhos. A diminuição das doenças, com a melhora das condições sócio-econômicas na maioria dos países, gera observações novas para cada tipo de doença infecciosa. Desaparecem alguns problemas, mas surgem outros. Os problemas que desaparecem eram muito mais graves do que os novos problemas. Assim evolui a ciência médica, e as tendências seculares de mudança no perfil mórbido não param de gerar novidades. O editorial de Gutierrez KM, no mesmo exemplar da J Pediatr, refere estudo recente, em oito países europeus, que mostrou grande variação na soropositividade do HSV-1 de 0-9 anos de idade, desde 8% na Finlândia, até 62% na Bulgária. Está claro que, com as melhores condições de higiene, entre outros fatores relacionados à modernidade, a infecção pelo HSV-1 em crianças está diminuindo. Alerta também que os clínicos devem saber orientar as famílias: a) infecção genital por HSV-1 é tratada com terapia antiviral episódica; b) infecção genital por HSV-2 é prevenida com uso consistente de preservativo, porém, o aumento da prática de sexo oral-genital irá aumentar a incidência de infecção genital por HSV-1.
Resumo e comentários: Aristides Schier da Cruz (SPP)