Palavra do Presidente
Dr. Aristides Schier da Cruz - Triênio 2007/2009

VALORIZAÇÃO DO TRABALHO DO PEDIATRA

Aristides Schier da Cruz
Presidente da Sociedade Paranaense de Pediatria

PEDIATRIA É UMA ESPECIALIDADE EM EXTINÇÃO?

A resposta a esta pergunta é simples. Pediatria NÃO É uma especialidade médica em extinção. A pergunta pode parecer ofensiva e grotesca, mas nós pediatras temos observado opiniões de muitos colegas, inclusive de alguns ícones da pediatria nacional, autores de livros especializados, colegas estes que afirmam que a pediatria está caminhando lentamente para a extinção. Quais são os argumentos para que sustentem a futura extinção da pediatria?
A – O nascimento de crianças não pára de diminuir no mundo todo
B – As poucas crianças que nascem não ficam mais doentes e não morrem
C – O trabalho do pediatra será substituído pelo médico de saúde da família
D – Cada vez mais o pediatra recebe muitas ligações telefônicas das mães, e deste modo resolve os problemas sem a caracterização de consulta médica remunerável
E – O médico passa a ser dispensável, pois a população cada vez mais pode obter as informações de saúde de que necessita na Internet
A questão, importante para que todos os pediatras saibam, é a de que os argumentos acima estão redondamente equivocados: Assim vejamos:
A – Apesar da diminuição progressiva da população de crianças e adolescentes, não acreditamos que eles deixarão de existir, pois, se isto ocorrer, já estaremos diante dos últimos suspiros da humanidade. Convenhamos, ainda este momento não chegou.
B – Em grande parte devido à atuação da pediatria, a morbidade e mortalidade de crianças e adolescentes não só caiu, mas mudou o seu perfil de causas, e isto gera as novas demandas. Apenas os profissionais especializados na área, ou seja, os pediatras, estarão habilitados a lidar com as novas demandas. A pediatria aos poucos passa a ser mais preventiva do que curativa.
C – O trabalho do pediatra não pode ser substituído pelo trabalho de nenhum outro profissional, inclusive o médico de família. Não se pode querer que os eletricistas técnicos substituam os engenheiros eletrônicos, ou que os advogados substituam os juízes. O profissional especialista nas questões de saúde da criança e do adolescente é o pediatra. Outros profissionais podem tentar executar o trabalho do pediatra, mas isto sempre irá gerar queda na qualidade da assistência.
D – Cada vez mais as mães tentam tirar dúvidas por telefone porque cada vez mais a população reconhece que o pediatra é insubstituível.
E – Todas as informações sobre saúde, ou quase todas, estão disponíveis na Internet. No entanto, o médico continuará sendo insubstituível, pois a população leiga sempre será incapaz de interpretar sintomas e sinais clínicos, de decidir sobre exames complementares, de fazer diagnósticos, de tomar decisões sobre uso de medicamentos, dietas e cirurgias.
CONCLUSÃO: crianças e adolescentes continuarão existindo por muito tempo, o pediatra é o profissional habilitado a lidar com suas questões de saúde física, mental e social e a população unanimemente reconhece isto. Os computadores jamais poderão substituir o seu trabalho.

PEDIATRIA É UMA ESPECIALIDADE EM PROCESSO DE DESVALORIZAÇÃO?

Essa questão, que vale para a maioria das especialidades médicas atualmente, é para os pediatras uma questão crucial no momento. O trabalho do pediatra tem sido mal reconhecido por vários segmentos institucionais. Com isto, o pediatra vê seu campo de trabalho ser atrofiado e sua remuneração definhar. A população há muito tempo reconhece que o pediatra é insubstituível. Aqueles que contratam o trabalho do pediatra em cargos de saúde pública ou de saúde privada, ou seja, os gestores de saúde pública e os administradores dos planos de saúde, são os primeiros a fazer questão de que seus filhos e netos sejam atendidos por pediatras. Porém, o trabalho do pediatra vem sofrendo forte desvalorização na última década. Quais são os indícios de que isso está acontecendo?
A – A população de crianças e adolescentes está diminuindo na América Latina e está aumentando a população de idosos. Isto é um fato, e faz aumentar a demanda por geriatras e diminuir a demanda por pediatras com o passar do tempo.
B – O Ministério da Saúde no Brasil e em outros países criou e remunera fartamente o Programa de Saúde da Família, o qual passa a dar assistência básica de saúde às crianças e adolescentes usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) sem a presença de pediatra em suas equipes.
C – Há muito tempo não há aumento nos pagamentos das tabelas de honorários do SUS pelo trabalho ambulatorial e hospitalar. Esses valores, verdadeiras esmolas, geraria – caso os médicos ainda aceitassem trabalhar para recebe-los – rendimento diário inferior ao que ganham os “flanelinhas” e os engraxates nas grandes cidades, inclusive com direitos trabalhistas iguais, ou seja, nenhum direito trabalhista.
D – O salário dos médicos contratados em empregos públicos, por 20 horas semanais, é baixo, cerca de doze vezes menor do que o dos deputados, que trabalham três dias por semana em nove meses no ano.
E – A ANS e os planos de saúde ficaram oito anos sem aumentar os honorários pagos pela consulta médica e demais honorários, e, somente nos últimos três anos voltaram a elevar, de modo irregular e caótico, os valores. Hoje recebemos pela consulta médica quase a metade do que recebíamos há dez anos atrás.

E quais são as conseqüências de tudo isto?
A – a demanda pela atenção médica pediátrica vem caindo.
B – caiu a empregabilidade do pediatra em cargos públicos de 20 horas semanais.
C – os pediatras deixaram de trabalhar em enfermarias ou ambulatórios pagos pelas tabelas (esmolas) de honorários do SUS, e estas tabelas continuam existindo, não se sabe por qual razão.
D – é alta a rotatividade de pediatras prestadores de serviços pelo SUS como plantonistas e horistas em ambulatórios, emergências, enfermarias e UTIs hospitalares, pois a remuneração é ruim e não há direitos trabalhistas. Quem paga caro é o usuário do SUS, pois o atendimento que recebe é incerto e de qualidade imprevisível.
E – foram fechadas as portas de 20 a 40% dos consultórios de pediatria de assistência privada nas capitais brasileiras.
F – Cada vez menos médicos recém-formados buscam se especializar em pediatria em todo o país.
G – Cada vez mais os pediatras abandonam sua especialidade para trabalhar em frentes que remuneram melhor, como o PSF, cargos administrativos municipais, estaduais ou privados, medicina estética, entre outros.

Com todo esse quadro estabelecido, fica fácil compreender as razões da desmotivação do pediatra, do seu desestímulo. Veja, este não é um problema local. Ocorre em todo o Brasil e Argentina atualmente, dois grandes países da América Latina. E não ocorre só com a pediatria, e sim com toda a clínica médica, ginecologia, obstetrícia e até mesmo com os cirurgiões.

Os problemas estão colocados. Apenas constatar sua existência é fácil. Difícil é o restante: difícil é, 1) refletir sobre os problemas; 2) unir as forças da classe pediátrica, da classe médica; 3) vislumbrar soluções em conjunto; 4) propor soluções em conjunto; 5) planejar estratégias e colocá-las em prática para conquistar as soluções.

Diante desse quadro, fica bastante claro o que todos já sabemos. Nosso trabalho está sendo mal remunerado, mesmo sendo um trabalho indispensável. Quase não há precedentes de conquistas da classe pediátrica a partir da união de suas forças. Você, pediatra paranaense, não acha que chegou o momento de dialogarmos e tentar o início de uma reação? A diretoria de SPP aguarda que você se manifeste nesse momento, por telefone, ou respondendo as mensagens recebidas por e-mail. É provável que tenhamos que nos reunir pessoalmente, em eventos voltados para a valorização profissional. Mas será fundamental que a maioria participe. Só assim os projetos serão viáveis.


Curitiba, 11 de maio de 2007